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Monthly Archives: Janeiro 2009

Então, esse negócio de “mexer nessas coisas ser forte”, é forte mesmo.

Estamos no quarto dia de encontro. Já rolou muita coisa. Uma imersão fantástica!

Cada um trouxe um pouco do seu universo para o trabalho, conseguimos colidir todos os fragmentos. 

Me lembro que no meu último semestre na faculdade o amigo Alexandre Lambert trabalhou a desterritorialização do território numa exposição. Até trocamos uns livros em conversas sobre o tema, porém, como na época não era uma pesquisa de meu principal interesse não me arofundei no assunto.

 Entramos aqui no unvierso do território, retomei o debate de “desterritorialização do território”; nação, do (agora) nosso território a Sala Preta, deste território Barra Mansa, esta nação Teatro!

David trouxe o mito do Narciso para dentro do trabalho. Temos um objeto que é um vidro grande, apoiado em pé, do formato de um espelho de corpo inteiro, porém é vidro transparente. Mas rola alguns jogos de luz que torna-o ora reflexivo, ora refrativo. Então nos chocamos com o apreciar-se, apaixonar-se por si, seu outro eu (reflexo), de forma que nele se encontra o outro que é visto pela refração. Rola até uma questão um pouco existencialista, a idéia que “o inferno são os outros”.  Na grande maioria das peças de Qorpo-Santo a temática do inferno, diabos, deuses, falsas crenças, é muito recorrente, junto a isso existe um constante e paradoxal jogo de inversão de relações em seus personagens.

 Um dos espetáculos tem o título de “Hoje sou um, amanhã sou outro”, onde o Governador confunde a cabeça do Rei quando diz que “ora conronéis agem feito crianças que por sua vez essas, ora agem como coronéis”. Uma das peças qorposantense mais famosas é “As Relações Naturais”, a primeira cena do primeiro é uma relação absurda entre criado e amo. São discursos fragmentados ditos por figuras arquetípicas, que nos traz à leitura absurda e cômica, muitas vezes dentro de um tema trágico. Ele foi durante muito tempo acusado de louco, justamente por esses personagens e ainda por tentar uma reforma na gramática portuguesa.

São esses jogos de relações que desorganizam em nome deste regresso ao nosso território.

A Desordem e o Regresso, nosso título!

 Na primeira cena todos nós cantamos patrióticamente o hino nacional, num tom muito debochado, já que nenhum dos quatro sabe direito a música toda. Cantamos num pseudouníssono, ora sincronizados, ora desafinados… desorganizados. Usamos o hino como um sígno comum que qualquer brasileiro reconhece ao ouvir, e o que reconhece à priori é a desordem. Logo quando termina, entro bradando o texto do hino nacional reorganizado de forma linear, como uma história sendo contada. Uma desorganização dos fragmentos do hino que resulta numa ação dramática.

 Ao final deste epílogo falamos, cada ora um, fragmentos do prólogo, anunciando a comédia em quatro atos de nome “Desordem e Regresso”. É uma adaptação da primeira fala do espetáculo “As Relações Naturais”.

Não chegamos à nossa figura feminina, mas ela está presente. Do banheiro sai uma gravação da Yoko Ono com a voz em distorção acompanhada de um hevymetal tocado pelos Beatles (em LP). Em cena, Danilo e David fazem a que chamamos de “Xamã”, em que David faz movimentos de bruxaria e Danilo responde atrás do vidro. Bianco entra em transe. É o início da loucura!

 Daí seguem-se as cenas. Alguns trechos de Qorpo Santo, fragmentos escritos por nós, textos de outros autores, cenas somente de ações dramáticas.

 Ontem finalizamos o ensaio em um ritual a Baco espetácular. Espontâneo, uniforme, uníssono. Hoje com a ciranda! Amanhã, quem sabe, com o silêncio!

 Está convidada para assistir, amanhã às 20 horas, na Sala Preta, centro de Barra Mansa, Rio de Janeiro, Brasil. Veja que  já é isso, pois, uma comédia!

 

Merdão.

 

Rafael Crooz

Por Rafael Crooz

sete de janeiro de dois mil e nove

Às margens plácidas do Ipyranga, ouviram o brado retumbante de um povo heróico. Neste instante, no céu da pátria, o Sol da liberdade brilhou em raios fúlgidos. Ó liberdade, se em teu seio conseguimos conquistar com braços fortes o penhor dessa igualdade, o nosso peito desafia a própria morte.
Salve!
Salve a pátria idolatrada, amada!
Brasil, se em teu céu formoso, risonho e límpido resplandece a imagem do cruzeiro, desce à terra um raio vívido, um intenso sonho de amor e de esperança. És belo, forte, colosso, impávido, pela própria natureza és gigante e o teu futuro espelha essa grandeza. Ó pátria amada! Tu Brasil, entre outras mil, és terra adorada. Brasil, ó pátria amada, és mãe gentil dos filhos deste solo. Ó Brasil, eternamente deitado em berço esplêndido. Florão da América. Fulguras a luz do céu profundo o sol iluminado do novo mundo ao som do mar. Teus campos risonhos, lindos, têm mais flores no teu seio do que a terra mais garrida. “Nossos bosques têm mais vida, nossas vidas mais amores”.
Salve!
Ó idolatrada pátria amada, salve!
Brasil, que o lábaro que ostentas estralado, seja símbolo de amor eterno e o verde-louro desta flâmula diga: “Paz no futuro e glória no passado”. Mas verás que, se ergues a clava forte da justiça um filho teu não foge à luta, nem quem te adora teme a própria morte. Ó amada pátria! És terra adorada entre outras mil tu, Brasil, pátria amada, és mãe gentil dos filhos deste solo. Brasil.

Ator, amigo, meu irmão, tu só vives de contradições e constrições. Tu vives somente no contra. O artista precisa consumar sua obra para que ela possa ser consumida. Porém não consuma a obra! Ela deve ser a consumação!

É justamente essa a minha opinião a respeito. Já disse e repito que creio tanto na existência de um Deus que nos criou, nos vê, nos ouve, e até que satifaz nossos desejos, como creio que não pode existir nenhuma família animal sem pai, vegetal sem semente, arbórea sem muda, ou haste de que brota e produz. Penso também que todo homem deve gozar da mais extensa liberdade para gozar, do modo que mais lhe agradar, conhecendo, e mesmo fazendo-se o experimentar todo. Como também que seus gozos não tragam disgraça a alguém que tem direito como os outros entes de gozar e não sofrer! Tudo quanto é fora desses princípios é pra mim bárbaro, desumando e cruel. Fui educado nos princípios da mais sã liberdade. Amo a fraternidade e almejo a humanidade. O que, porém, é necessário para não erramos, é sabermos fazer a mais discreta distinção entre o que é agradável aos outros entes de nossa espécie, e que também é a nós, sem que alguém sofra, e o que é a eles desagradável, porque lhes traz sofrimento. Feita essa distinção, nada mais fãcil para sermos verdadeiramente felizes, agradando ao nosso Criador, e aos entes de nossa espécie, e o que procede de modo que nos convenha, e a eles, e esquivarmos-nos de praticar atos que, embora nos convenha, a eles prejudiquem e ofendam.

O homem é um lobo para outro homem e como seu interesse é a sobrevivência, cada homem faz uma espécie de pacto com os outros homens.

E ae? Onde acha que tá mais caro, amigo, em casa ou no bordel?