Limpa a rua, e sai da frente

LIMPA A RUA, E SÁI DA FRENTE

 

 

Nos dias 26 e 27 de março de 2011, aconteceu em Osasco/SP o Congresso Brasileiro de Teatro reunindo profissionais do teatro nacional de vinte Estados e do Distrito Federal. Foi elaborada a Carta de Osasco que exige a regulamentação da ocupação de prédios públicos ociosos; apóia o Projeto de Lei do Dep. Federal Vicente Cândido, que trata do respeito ao artista de rua; e também exige a aprovação imediata do Prêmio do Teatro Brasileiro, inserido no ProCultura, que já passou pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados em Brasília. Os congressistas assinaram ainda uma moção de repúdio às leis de incentivo.

 

O CBT contou com a presença da Ministra da Cultura Ana de Holanda, cujo discurso foi inexpressivo, sobre sua trajetória como secretária de cultura de Osasco, e com uma única frase em resposta à toda uma mobilização de dois dias de artistas de todo o país: “Eu apoio o Prêmio Teatro Brasileiro”. Ora, ela apóia. Mas, nada garantiu que o Ministério da Cultura está comprometido com sua exitosa existência. Lamentável.

 

Os artistas profissionais do Brasil se conhecem. Os artistas profissionais, digo, que se sacrificam para se sustentar de seu ofício e que não participam da corja capitalista que envolve as mega produções neste país. No Sul Fluminense vivemos uma situação bem diferente do resto do país, que merece ser vista. Por aqui não sofremos as repressões que os artistas de rua sofrem em todo o país. Uma das principais pautas levantadas no Congresso e que cabe uma breve reflexão. Aproveito ainda o espaço para expressar o papel que acredito que o Estado deveria adotar.

 

Estritamente no recorte do teatro brasileiro é possível levantar algumas informações básicas sobre a mobilização nacional que rege as ações deste segmento do setor cultural. Os artistas de rua, por exemplo, criaram a RBTR – Rede Brasileira de Teatro de Rua, em 2007 e se encontram no mínimo duas vezes ao ano em qualquer canto do país. O próximo encontro será em Arcoverde/PE, entre os dias 17 e 21 de maio. A Cooperativa Paulista de Teatro, concentra mais de 4 mil associados só no Estado de São Paulo e realiza ações e eventos que reúne os profissionais de teatro de todo o país esporadicamente. Essas e outras organizações são determinantes para a construção das políticas culturais do Brasil. São esses indivíduos materializados em organizações coletivas que ditam o compasso das decisões políticas do setor cultual.

 

O Congresso Brasileiro de Teatro (1979, em Arcozelo), o Movimento Brasileiro de Teatro de Grupo (anos 80), o Movimento Arte Contra à Barbárie (1998), o Redemoinho (2004-2009), a Rede Brasileira de Teatro de Rua (2007), culminaram na elaboração da Lei Prêmio do Teatro Brasileiro, e forçou sua inclusão no ProCultura, lei que substitui a atual Lei Rouanet.

 

A RBTR desencadeou mobilizações em todo o país contra as violências sofridas pelos artistas de rua por exercerem seus ofícios livremente como determina o artigo 5º da Constituição Brasileira de 1988, que trata do direito de livre expressão, o direito de ir e vir. São estas ações que apontam para o Ministério da Cultura qual deve ser seu papel. São os próprios artistas que ditam as condições específicas para se manterem com o que sabem fazer.

 

O papel do poder público, além de garantir os parcos recursos que despencam hoje para o setor cultural, deveria ser principalmente o de garantir o referido artigo 5º da CF/88. Ou seja, limpar a rua e sair da frente.

 

Essa expressão é adotada quase que na sua literalidade pelo gerente de cultura da Fundação de Cultura de Barra Mansa/RJ, o Sr. Vicente Melo, que contribui até onde está a seu alcance (e um pouco mais) para a manutenção da cultura local do município onde trabalha. Quando o Sr. Vicente Melo levanta essa bandeira, bradando silenciosamente pelos corredores do prédio público onde trabalha, não só mostra a cabeça que um gestor público precisa adotar nas ações culturais como talha seu posicionamento como representante de segundo escalão do órgão responsável pela cultura de Barra Mansa/RJ.

 

O Superintendente desta Fundação, que faz a vez de uma Secretaria de Cultura, é o Sr. Luiz Augusto Mury, que corajosamente (seria essa a expressão?) entra numa Kombi com 10 artistas e parte do centro da cidade para os bairros mais distantes e esquecidos (até aquele momento) pelo poder público, para levar espetáculo de teatro de rua. Enquanto em outras cidades do país, os artistas de rua são colocados em camburões e levados para a delegacia sob a infeliz denúncia de que estão exercendo atividades comerciais ilegais.

 

Como é possível, um município de 170 mil habitantes, tratar o teatro de rua com o mínimo de dignidade? O que há de diferente nessa cidade? Seriam os artistas? Seria a comunidade? Seria o prefeito? Confesso que ainda é muito cedo para entender as causas e efeitos do movimento de teatro de rua em Barra Mansa. Mas, já é possível perceber que é a exceção do Brasil. Pode ser temporário. Pode ser só uma questão de governo. Mas, definitivamente os munícipes de Barra Mansa se orgulham de ver a cidade pulsando arte pelas praças, ruas, calçadas, fontes, pontes e prédios históricos da cidade.

 

Assim deve ser em todo o país. Assim deve ser em cada lugar que se diz urbano. Assim deve ser o papel, afinal, que cabe ao Estado na complexa dinâmica cultural brasileira.

 

O que cada artista de teatro presente no CBT pode levar para seu Estado é a mensagem à seus deputados de que apóiem a urgente aprovação do ProCultura, que apesar de ainda lançar mão dos mecanismos de incentivos fiscais, é considerado pelo segmento do teatro, como um avanço nas políticas culturais do país. A exigência na carta é clara e direta para uma “aprovação imediata do Projeto de Lei PROCULTURA, no qual está inserido o Prêmio Teatro Brasileiro, com dotação orçamentária própria em Lei especifica”.

 

Essa é a mensagem que chega à Região do Médio Paraíba Fluminense, e torcemos para que seja replicada em cada rincão deste e de todas as unidades da federação.

 

Marcelo Bravo

 

Bravo é produtor do Coletivo Teatral Sala Preta de Barra Mansa/RJ

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: