Esgotado

Pensei aqui como descrever os dois dias que passamos neste encontro com o Franciulli e me veio a cabeça um texto que li recentemente, chama-se O Esgotado, do Deleuze.

“O esgotado é muito mais que o cansado. ‘Não é um simples cansaço, não estou simplesmente cansado, apesar da subida.’ O cansado não dispõe mais do que qualquer possibilidade (subjetiva) – não pode, portanto, realizar a mínima possibilidade (objetiva). Mas esta permanece, porque nunca se realiza todo o possível; ele é até mesmo criado à medida que é realizado. O cansado apenas esgotou a realização, enquanto o esgotado esgota todo o possível. O cansado não pode mais realizar, mas o esgotado não pode mais possibilitar. ‘Peçam-me o impossível, muito bem, que mais me poderiam pedir”

Bem, nos foi pedido muita coisa nestes dois dias. Rolamentos, paradas de mão, emoções, relações, ações, texto, o impossível… Hoje teríamos um ensaio do Devir, a proposta era retormar o começo. Recomeçar. Recomeçar o improviso, buscar novas ações, novos fontes de subpartituras. Hoje encontrei mais um aliado interessante que com certeza irei investigar no meu caminho. As emoções. As emoções sim podem gerar ações. Elas podem gerar associações! Salve Jorge, CNPJ! As emoções são chaves. Elas abrem caminhos, portas e abrem as relações. Me emocionei várias vezes com a sincronia-sintonia que encontrei com David. Foi lindo e eu tive uma amiga que se emocionou e morreu.
Deus que me livre!
Falando nisso, Deleze continua:

“Deus é o originário ou o conjunto de toda possibilidade. O possivel só se realiza no derivado, no cansaço, enquanto que se está esgotado antes de nascer, antes de se realizar ou de realizar qualquer coisa (renunciei antes de nascer).”

Lembro do Grotovski me sussurrando alguma coisa sobre exaustão… Nesta hora me ecoa o David novamente, falando da energia. Sim. Eu não podia parar. Eu estava com energia suficiente para caminhar a distância entre B.M. x Marselle. Mas esta energia chegou caminhando até aqui e fui pego de surpresa! O que deixou tudo muito mais emocionante. Por que foi possível. Mesmo de última hora conseguimos organizar um trabalho bacana. E nós tornamos isso possível. Segue, o homem:

“Quando se realiza um possível, é em função de certos objetivos, projetos e preferências: calça sapatos para sair e chinelos para ficar em casa. Quando falo, quando digo, por exemplo, ‘é dia’, o interlocutor responde: ‘é possível…’, pois ele espera saber o que pretendo fazer do dia: vou sair porque é dia… A linguagem enuncia o possível, mas o faz preparando-o para uma realização. E, sem dúvida, posso utilizar o dia para ficar em casa; ou posso ficar em casa graças a um outro possível (é noite) (…) não diz o que é, diz o que pode ser… Você diz que está trovejando, e alguém lhe responde no campo: é possível, pode ser… Quando digo que é dia, não é porque seja dia… [mas] porque tenho alguma coisa para realizar, à qual o dia só serve como ocasião, pretexto ou argumento”

E que pretexto para acordar bem cedo!! Nos dipormos, sem tomar café, arrastado, pegando o caminho “indireto”, mas chegando e não perdendo tempo.
O trabalho de permitir os encontros foram em bolinhas, bolas e bolões. Encontros bolinhas que se deram entre os seres e sua própria condição de ser. O encontro bola destes seres artistas desta geração que aprendeu muito com a geração que roeu o osso para chegarmos mordendo uma carninha. O encontro entre tempos. O encontro bolão é o tempo que foi e voltou, o tempo que vai se desencontrar, o tempo de viver o agora entre a descoberta do Eu e o Outro. Essa combinatória de elementos que formam a dor de ser ator ser incluída no rol das dores mais prezerosas do ser. Então eu sigo citando o Deleuze pois me faltam melhores termos para dizer o que realmente gostaria:

“A disjunção torna-se inlcusa, tudo se divide – mas em si mesmo -, e Deus, o conjunto do possível, confunde-se com Nada, do qual cada coisa é uma modificação. ‘Simples brincadeiras do tempo com o espaço, ora com uns brinquedos, ora com outros. (…) A combinatória é a arte ou a ciência de esgotar o possível, por disjunções inclusas. [não foi isso que fizemos no exercício prático?] Mas apenas o esgotado pode esgotar todo o possível, pois renunciou a toda necessidade, preferência, finalidade ou significação. Apenas o esgotado é bastante desinteressado, bastante escrupuloso. Ele é forçado a subistituir os projetos por tabelas e programas sem sentido. O que conta para ele é em que ordem fazer o que deve e segundo quais combinações fazer duas coisas ao mesmo tempo, quando ainda necessário, só por fazer. (…) A combinatória esgota seu objetivo, mas porque seu sujeito está esgotado. O exaustivo e o exasuto.”

Meus músculos estão exaustos. Me dizendo, afirmando, que é esse é o meu ofício. Esgotar-me ao cansaço. Cansar-me do esgotamento. Exaurir as possibilidades e reconhecer-me no percurso do devir involutivo. Regressar à raiz é reinvertar-se pois somente na raiz que podemos viver o re-nascer, o re-surgir – resurreição. Da raiz, do velho-novo conhecimento, nós nos renovamos. Buscamos nosso estado itinerante de nos pertencermos. Mudamos nossos sentidos, nos ressignificamos. Agora eu sinto mais uma porta aberta para um devir intenso, chorar, virar, arrastar, engatinhar, levantar, cair, falar, caminhar, segurar e correr. Renascer. Esse é a meta de nosso devir imperceptível. Não nos vemos, não nos definimos, não somos capazer de dizer o que já somos o que está por vir. O nosso trabalho nos faz devir animal capaz de planejarmos o caminho e esgotar os cálculos.

Meu sono está por vir. Um real sonho de pertencer á uma companhia teatral de fato. Para todos os efeitos, hoje, dia do renascimento desses alguns atores, renasce também o nosso registro oficial. Hoje não só rompemos a plascenta, mas registramos em cartório, batizamos e matriculamos na escola, (salve dan!).

Nascer sempre é um processo doloroso. Imagina você ter ficado tanto tempo dentro de uma “atmosfera” líquida, sendo que você cresceu muito mais do que aquela película pode aguentar e de repente, quando isso se rompe, você é obrigado colocar ar nos pulmões que antes estavam encharcados, selados. Pela primeira vez ver a luz, ouvir ondas sonoras sem a reverberação líquida. Isso dói. E chora-se pela dor e delícia de reconhecermos que agora Somos. No momento em que se Nasce, se É.

Mais um verbo.

To be or not to be? Estar ou não Estar? Star or não Star? Ser ou não Ser?

Mais uma questão. Afinal precisamos sempre buscar melhores questões… não é verdade?

Onde que é vai dá?

Tô feliz pra caralho. Brigado.

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Rafael Crooz

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