A Cidade Conta Sua História

José Guilherme Franco Gonzaga

O que acontece quando um grupo resolve tomar a cidade, transcriando sua história e junto com a população reconta-a em forma de um teatro ambulante, que percorre desde o massacre dos povos originários, o uso abusivo do trabalho escravo misturando a história redescoberta a contra-pelo com a história oficial dos vencedores? O que acontece? Talvez as 2000 pessoas que em diferentes momentos passaram pela festa-teatro-popular-de-rua tenha, cada uma, uma resposta. A minha: Emoção. A cada ato, entre o riso e a história, um desejo de chorar. O senso ético se mistura ao estético e a emoção transborda, ora em tristeza, ora em alegria, ora no prazer de estar ali… jovens correndo, gritando, cantando, soltando fogo, dançando… O mais fantástico a cidade (suas construções históricas, ruas, pontes, rios, parques, monumentos), da mesma forma que o povo presente, mais que cernários ou expectadores, são personagens… entram na história, falam na peça, contam com sua presença a história… participam, interferem. A Princesa Isabel assinando a “Lei do Dia Municipal do Fico o Mastro do Circo na Rua de Barra Mansa”, numa clara crítica, depois repetida, ao controle estatal sobre um espaço que antes de tudo deveria ser público, depois ainda na mesma cena, ainda que no ato seguinte, a mesma Princesa, enfaixada denunciando o “Tombamento” (do verbo cair e não da ação política de permanecer como marco histórico) do Casarão onde morou o Barão de Guapi, hoje desleixado as moscas da Dengue e ao desleixo dos poderes públicos. Na cena seguinte o leite derramado sobre o corpo dos escravos mortos pela exaustão da panha do café, servia ao Barão para lavar as mãos e dizer que nada tinha com isso, era apenas o preço do progresso. A tristeza das escravas chorando pela morte de seus pares ao mesmo tempo que estruprada pelo Barão representando a violência contra a mulher ontem e hoje. Antes disso, no palácio, que durante muitos anos, serviu de sede dos poderes muncipal, a assinatura da lei que transforma a vila em cidade e um coral lindo, de senhoras (Vozes de Ouro), nas janelas, canta o hino da cidade de Barra Mansa. Emoção… A encenação segue, o canto do sertão, da roça, conduz o povo em marcha para a transição do aço, na Estação uma homenagem justa, necessária, importante à história dos movimentos de resistência cultural de Barra Mansa. A estação em chamas, destruída pelo fogo enquanto o Sala Preta resgata a luta de Marco Medeiros e outros artistas pelo salvamento do prédio e a preservação de sua história, relembrando que o risco do abandono segue como no caso da Mansão do Barão. Esperamos todos que a história do Clube Municipal, seja como a da Estação e não como a do antigo Fórum, “tombado” para a construção do hoje Banco Itaú, ou a de nossos teatros-cinemas agora loja de eletrodoméstico e verdurão. Ainda na Estação, enquanto os Guardas Municipais mandavam os carr os passar no meio dos atores-expectadores, era lido um manifesto em defesa do direito à cidade e sua “tomada cultural” – “enquanto houver bambu, flecha neles”, somos convocados a defender nossa história e nossa cultura popular que atravessa fronteiras e o aço de Volta Redonda que já pertenceu ao Município de Barra Mansa, volta ao som do Bloco de Concreto, aliançando-nos com o aço. Na praça da Matriz um encontro necessário, nessa sociedade marcadamente católica, entre a história e a religião na encenação da morte de São Sebastião. Dali para o hoje, o momento atual, condicionado pelo passado e pela expectativa do futuro, uma enorme ciranda de crianças na Fazenda da Posse, primeira edificação de Barra Mansa, recuperada pela insistência da gestão da Prefeita Inês Pandeló, o passado encontra o futuro no presente e sob a ciranda a história termina continuando e anunciando o futuro. Lindo, emocionante… o sarcasmo que faz ri nos ajuda a nos entender.

A transcriação do teatro popular da idade média misturando cultura de dominio popular com músicas eruditas, usando o riso como arma de denúncia e a história como inspiração, me faz pensar a escola. Por que aprendemos mais sobre a história de Barra Mansa com o Sala Preta do que nas salas de aulas? Por que aprendemos mais quando não temos um currículo a seguir, provar nada para ninguém, eu não sabia que o casarão do Clube Municipal era a residência do Barão, talvez nunca precisasse saber, mas se tivesse aprendido na escola, teria que provar que aprendi, para quê? As muitas crianças brincando de ciranda como garantir o ensaio e a apresentação? Pela liberdade, pelo prazer, pela alegria, pela criatividade? Será que isso que falta em nossas escolas?

VALEU SALA PRETA!

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