Projeto Zonas de Contato realiza mais uma etapa; “pretos” tiveram encontro com Renato Ferracini, um dos maiores pesquisadores do teatro do Brasil

Sala Preta novamente na UERJ

publicado originalmente em: http://www.olhovivo.ca/teatro/115/sala-preta-de-barra-mansa-novamente-na-uerj/

(Texto e Fotos: Marcelo Bravo)

Os “Pretos” participaram do projeto entre a segunda-feira, 10, e quarta, 12 de setembro.

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Pouco mais de 20 pessoas estiveram numa sala de piso de madeira amarelado, paredes azuis, janelas em persianas, alguns puffs empilhados e o mais importante acordo entre eles foi dito por um sujeito baixo, careca, com brincos destacados e voz didaticamente preparada: “Teremos dois ambientes hoje, o do silêncio e o da conversa. Dentro da sala trabalharemos só o corpo e sem palavras. Quem quiser conversar a qualquer momento pode sair.”

Assim, antes de começar o aquecimento e as propostas de ações e movimentos, esse sujeito faz questão de apresentar a história de um grupo de teatro de Campinas, e sua própria história com o grupo. Trata-se de Renato Ferracini, que, além de coordenador do Lume – Núcleo interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da Unicamp -, é ator-pesquisador onde atua teórica praticamente em todas as linhas de pesquisa desse núcleo desde 1993. Ferracini graduou-se em artes cênicas pela Unicamp, onde também concluiu seu mestrado em 1998 e seu doutorado em 2004 em multimeios. O Lume foi fundado em 1985, por Luís Otávio Burnier, Carlos Simioni e Denise Garcia, é conhecido em 26 países e considerado um dos mais importantes centros de pesquisa teatral do Brasil.

Projeto

Renato Ferracini, além de coordenador do Lume, é ator-pesquisador

Generosidade e proatividade

Apresentações feitas dá-se início ao aquecimento de pouco mais de uma hora. Intervalo e mais uma hora e meia de ações, movimentos, danças, jogos, e um exercício intenso de generosidade e proatividade. Assim começa uma semana para o Coletivo Teatral Sala Preta, de Barra Mansa. Entre a segunda-feira, 10, e quarta, 12 de setembro, os “pretos” tiveram um encontro com um dos maiores pesquisadores do teatro do Brasil. Foi mais uma etapa do projeto Zonas de Contato, organizado pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), pela professora doutora Denise Espírito Santo.

O foco do projeto Zonas de Contato é construir um espaço de convergência entre os grupos que normalmente reúnem artistas e informação, e propiciar financiamento por meio de agências de fomento a projetos dentro das universidades. De acordo com a professora, o projeto surgiu em 2010, e a primeira etapa foi o encontro do Sala Preta com o diretor argentino Noberto Presta, também na Uerj. Além do coletivo de Barra Mansa, artistas e grupos de diferentes localidades do interior do estado e também de bairros da capital participam do projeto, que possibilita o encontro e a manutenção de redes. Os participantes costumam dizer que é uma rede de redes.

Sala Preta

Na prática: Mais uma hora e meia de ações, movimentos, danças e jogos

O Sala Preta e a Uerj

Para a professora Denise Espírito Santo, que também é diretora do Instituto de Artes da Uerj, o Sala Preta dialoga com a pesquisa desenvolvida no ambiente acadêmico e por isso escolheu o grupo para o projeto.

– O interesse em trazer o Sala Preta para a Uerj é porque identificamos esse trabalho de pesquisa, que vem de encontro com as aspirações de uma universidade. A gente procura mirar grupos que têm uma perspectiva de trabalho semelhante. Eu já acompanho o grupo há algum tempo e percebo essa inquietação, que se traduz num trabalho de investigação do ator, sobre as possibilidades criativas e expressivas – diz.

Para Ferracini, o grupo de Barra Mansa mostra-se preparado e aberto para novas propostas e ações e comenta:

– Eu vi que o Sala Preta é lugar fértil, onde você planta e pode dar uma floresta, sabe? O Sala Preta, e a Denise, estão numa zona ética, um lugar bom para ser arado, para dar frutos.

E completa:

– Tudo isso só vai ter sentido se o Sala Preta pegar esse conhecimento e transformar para o grupo.

Aspecto político

A atuação do Sala Preta nas políticas públicas, a intervenção urbana com seu teatro de rua e a forma como se organiza institucionalmente também compõem as justificativas para a participação do grupo no projeto Zonas de Contato. A professora Denise comenta:

– É também sobre uma função que os coletivos acabam assumindo num momento em que há uma reconfiguração desses sistemas de artes, desses circuitos culturais. Por isso é interessante também o aspecto político da escolha do grupo. Pois é um grupo que busca a visibilidade e a atuação dentro de sua área de atuação.

Para o mexicano Bernardo Lapuente, a possibilidade de dialogar em diversas esferas com os “pretos”, é que motiva sua pesquisa de intercâmbio e comenta:

– Eu posso dialogar com o sala Preta sobre minha pesquisa teatral, mas também minha pesquisa institucional. O processo de grupo, como se constitui, como forma, uma figura legal no mercado.

Intercâmbio dentro do intercâmbio

Desde o começo de agosto o Sala Preta recebe o ator e palhaço mexicano Bernardo Sanchez Lapuente, como parte de sua pesquisa do mestrado em pedagogia teatral pela Universität der Künste Berlin (Universidade de Artes de Berlim) na Alemanha. O artista vem ao Brasil, pelo segundo ano consecutivo, desenvolver um intercâmbio com o Sala Preta. Por isso, aproveito o espaço para destacar a passagem do “carnal” (expressão mexicana utilizada entre grandes amigos). Em três semanas o intercambista visitou as escolas públicas de Barra Mansa beneficiadas pelo projeto Teatro Nas Escolas, cujos professores são do Sala Preta.

Além da convivência e pesquisa sobre a pedagogia teatral desenvolvida pelos artistas do grupo, Bernardo Sanchez pôde dirigir um conto apresentado no dia 9 deste mês no Sesc (Serviço Social do Comércio) Barra Mansa. Além de aprimorar o treinamento e pesquisas como palhaço nos semáforos de Barra Mansa e Volta Redonda, ainda sobrou tempo para malabarear em um shopping em Resende e treinar acroyoga na sede do Sala Preta e pelas praias de Ipanema, no Rio de Janeiro. Mesmo com tantas atividades, o artista mexicano pode participar do Zonas de Contato. Um intercâmbio dentro do intercâmbio.

Para Bernardo Sanchez, a oficina foi reveladora de vários conhecimentos que poderão ser aplicados em sua tese de mestrado.

– A pesquisa dos movimentos internos do ator e dos movimentos externos pode me fazem refletir sobre o trabalho que desenvolvo na universidade com o teatro de surdos. Pra mim foi tudo incrível – comentou.

O projeto vai até o fim de 2012

O Zonas de Contato já realizou duas etapas. A primeira com Noberto Presta e a segunda com Renato Ferracini. Mas ainda haverá no próximo mês um encontro com a bailarina e coreógrafa Carmen Luz, e em dezembro com a professora e diretora do Grupo LiquidAção, ambas da capital fluminense.

Bianco Marques, ator do Sala Preta, destaca que participar do projeto Zona de Contato é uma grande oportunidade de ampliar seu potencial de pesquisa:

– Com o Ferracini foi uma oficina curta, mas o trabalho continua até o fim do ano com outros profissionais. Além disso, continuaremos o treinamento dentro do Coletivo, em nosso espaço. Nesses três dias de vivências refletimos sobre o que nos move, o que nos faz ficar de pé. O que, no ator, vem antes dos códigos teatrais. Como acordar o nosso “leão”. Corpo e mente não se dissociam nesse processo.

Convidados internacionais

A intenção é construir um entendimento do que foi vivenciado ao longo dessas oficinas e poder apresentar alguma etapa ou a conclusão na mostra de teatro de rua Tomada Urbana deste ano. O coletivo barramansense realiza essa mostra desde 2009, sempre com convidados internacionais. Este ano são esperados artistas colombianos, mexicanos e equatorianos.

Eloisa Branches, que esteve nos encontros e será a responsável pela última etapa do projeto neste ano, diz que o formato do projeto foi uma escolha conjunta, numa reunião em Barra Mansa e destaca:

– Não é um projeto que vem pronto. O objetivo é descentralizar a produção artística no Estado do Rio de Janeiro, incentivando os grupos. Eu acho muito importante como proposta e que vai ser desafiador para todo mundo.

Eu pude participar dos três dias do encontro documentando tudo. Fiz um vídeo que foi editado por Rafael Crooz. As fotos que ilustram essa matéria também foram obras deste colunista. Para os mais interessados em acompanhar o processo, o Sala Preta espera abrir para a participação dos atores do Sul Fluminense nas etapas seguintes e quem sabe até inserir alunos do Projeto Teatro nas Escolas, da Fundação de Cultura de Barra Mansa. É só aguardar e seguir o grupo em sua página ou noFacebook.

Por Marcelo Bravo  –  marcelobrv@gmail.com
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1 comment
  1. fejolo said:

    Eu achei este texto sobre a interação de vocês com o pessoal da UERJ fantástico! Fui estudante desta universidade, vi muitas peças e muitos grupos, mas nenhum como o de vocês!! Abração Thomas!

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